O Maior no Reino

Mateus 18.1-6; Marcos 9.33-37

Começámos por dar uma olhadela a uma frase incrível encontrada na Bíblia - uma frase que é muito significativa na vida do crente e, ao mesmo tempo, uma frase que é muito difícil para alguém que não conhece Cristo. O "Reino de Deus" é, afinal, a mensagem de Jesus Cristo e como começámos a ver - há segredos sobre este Reino que Jesus quer revelar a quem vai ouvir, aos que vão ver e àqueles que procurarão compreender.

E por isso, vamos hoje abordar um assunto que parece ser uma das questões mais importantes nas mentes dos discípulos de Jesus. Eles ouviram Jesus falar do Reino, mas queriam ser uma parte muito importante do seu Reino e não só isso - afinal eles tinham desistido de muita coisa para seguir Jesus…

Muito transparentemente, encontramos esta questão em Mateus 18.1-6

1 NAQUELA mesma hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: Quem é o maior no reino dos céus?

2 E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles,

3 E disse: em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.

4 Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus.

5 E qualquer que receber em meu nome um menino, tal como este, a mim me recebe.

6 Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar.

Uma das coisas que tornam as crianças muito divertidas é a sua maneira única de ver o mundo. Os seus mal-entendidos podem às vezes dizer-nos mais do que nós queremos saber. 

Mas Jesus disse que havia algo mais para as pessoas a quem chamamos crianças do que apenas o seu valor como engraçadas. Ele afirma que as crianças são, na verdade, modelos do que significa entrar e crescer no Reino de Deus. Na verdade, Jesus deixa bem claro: a chave para a vida espiritual e crescimento é ter uma humildade como a das crianças.

Convido-te a olhar mais de perto para as Suas palavras no Evangelho de Mateus, capitulo 18 e versículos 1 a 6.

1. A Grandeza não é medida por Altivez ou Orgulho.

As pessoas são estranhas: querem ir nos bancos da frente do autocarro, estar na parte de trás da igreja, e ser o centro das atenções.

Jesus e os seus discípulos estão, provavelmente, em Cafarnaum, provavelmente na casa de Pedro, quando começam a discutir entre si sobre uma questão que surgia com demasiada frequência: Quem é o maior no Reino dos Céus? O próprio Jesus tinha usado esta frase em Mateus 5.19 “19 Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus”, referindo-se àqueles que obedecem aos Seus ensinamentos. 

Por que é que eles fazem essa pergunta, e o que é que eles querem dizer com isso?

A palavra “grande” significa aqui, literalmente, o maior, o mais velho, o mais forte. Era um termo que implicava uma posição mais elevada como resultado da idade, da ambição ou apenas da sua força. Ao adicionar as palavras no “reino dos céus (ou reino de Deus)”, eles estavam a perguntar a Jesus qual deles era o mais espiritualmente maduro, e, portanto, o mais digno de ocupar a mais alta posição de poder ao lado de Cristo.

A passagem paralela que encontramos em Marcos 9.33-37, diz-nos que realmente estavam a discutir sobre isso, e podemos ter a certeza de que cada um deles tinha as suas razões para pensar que era o mais preparado espiritualmente.

“33 E chegou a Cafarnaum e, entrando em casa, perguntou-lhes: que estáveis vós discutindo pelo caminho?

34 Mas eles calaram-se; porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior.

35 E ele, assentando-se, chamou os doze, e disse-lhes: se alguém quiser ser o primeiro, será o derradeiro de todos e o servo de todos.

36 E, lançando mão de um menino, pô-lo no meio deles e, tomando-o nos seus braços, disse-lhes:

37 Qualquer que receber um destes meninos em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, recebe, não a mim, mas ao que me enviou”.

Pedro foi, seguramente, o porta-voz, a quem Jesus tinha apelidado “Rocha”. Ele certamente seria o maior. João protesta, porque mesmo que Pedro tenha uma boca grande, João era o seu favorito, porque Ele geralmente chamava a Si o discípulo que mais amava. Mateus aproveitou a oportunidade para salientar o facto de que tinha deixado uma posição muito lucrativo como cobrador de impostos para seguir Jesus. André lembra-lhes que ele foi o primeiro a segui-Lo. E Judas, o homem com o dinheiro, sem dúvida mencionou a sua confiança.

Agora, todos eles esperavam por Jesus para resolver esta disputa. E com um suspiro, Jesus estava a tentar ensinar-lhes que o caminho para subir a escada no Reino não era para cima, mas para baixo.

Mas o orgulho humano sempre quer limpar o seu próprio caminho para a grandeza. O orgulho é uma atitude perigosamente enganosa, que pode até mesmo envenenar a água pura da espiritualidade. É muito fácil pensar que o nosso serviço a Deus nos faz ganhar algum lugar especial de honra com o Senhor, como se quanto mais fizermos, mais valiosos e importantes somos para Ele, e, por consequência, maiores e melhores somos em relação aos que nos rodeiam.

Quando vamos aprender que não temos que ganhar o amor de Deus? Deus ama-nos agora, e embora, certamente, nos premeie pela nossa devoção e serviço, o que fazemos como cooperadores de Deus não faz com que Ele nos ame mais ou menos. Para ter a certeza e se queremos ir com Ele, temos de ser salvos, mas mesmo a salvação não vem pelas nossas obras, mas pela nossa fé. Tudo o que fazemos, lutando para ganhar o Seu amor só alimenta o nosso orgulho, e tende a fazer-nos dar palmadinhas nas costas, confortando-nos com a ideia de quão bons somos. Jesus diz que a nossa vida espiritual e crescimento no Seu reino (a nossa grandeza, se preferires) não se baseia na nossa bondade, na nossa capacidade, mas na Sua Graça. E Ele vai-nos mostrar como essa Graça se torna real nas nossas vidas.

Cuidado com o erro de pensar que podes ser grande em Deus apenas por causa do que tu fazes. A grandeza encontra-se noutro caminho, que Jesus nos mostra nos versos 3 e 4 de Mateus 18 “3 E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.

4 Portanto, aquele que se tornar humilde como este menino, esse é o maior no reino dos céus”.

2. Grandeza é medida pela Humildade.

Os discípulos queriam usar a palavra “maior” no sentido de ser “o mais importante”, mas acredito que Jesus queria usá-la no sentido de ser “adulto”.

Isso é o que faz a Sua escolha ser surpreendente para ilustrar o que constitui a verdadeira grandeza no Reino de Deus. Jesus usa esta criança como uma lição para estes homens egoístas. Ele usa uma criança para os ensinar a crescer espiritualmente.

Como a criança fica ali entre os surpreendidos discípulos, Jesus deixa cair uma bomba. Ele diz: "Em verdade vos digo ... a não ser ... não vos fizerdes". Todas estas palavras / frases, são enfáticas, ressaltando a importância que Jesus está a colocar na verdade que lhes está a dizer.

O que Ele lhes diz pode ser dividido em duas partes: 

1. A necessidade de humildade para entrar no Reino.

2. A necessidade de humildade para crescer no Reino.

1. Primeiro, Cristo diz-lhes que “a menos que se convertam e se tornem como crianças, nunca poderão entrar no Reino dos Céus, e muito menos ser grande nele”. Convertido, aqui, significa literalmente mudar radicalmente a direcção da vida (a encruzilhada). Embora Jesus possa ter gentilmente lembrado aos discípulos que eles estavam, nos seus pensamentos, a ir na direção errada, o Seu ponto principal é que para que alguém receba, deve haver um afastamento do pecado e uma mudança de direcção para Cristo. Isto é o que na Bíblia se chama “arrependimento”, e é um aspecto necessário da fé salvadora que produz o novo nascimento que Jesus falou em João 3.3, quando Ele disse a Nicodemos “3 Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”.                    

 2. Além disso, Jesus diz-lhes que a chave para o crescimento no Reino envolve uma outra atitude importante, que ele descreve como “tornar-se humilde como este menino”. Como a criança ainda de pé, ali diante deles, Jesus diz-lhes que têm de tornar-se como uma criança antes que possam crescer no reino de Deus. O que é que isso significa para eles?

Para a cultura judaica, a criança não era minimizada ou desprezada, mas amada. No entanto, as crianças eram os membros mais impotentes da sociedade antiga. Somente quando cresciam em idade e estatura se tornavam capazes de ser ouvidas e admitidas como membros da comunidade. Além do amor das suas famílias, eles não tinham poder ou privilégios. 

O que aponta directamente para algumas das qualidades de humildade das crianças que caracterizariam aqueles que fariam parte do Seu Reino:

Humildade

Sem poder ou direitos, as crianças eram pequenas em mais do que apenas estatura; eles não tinham voz no lar, na cidade, ou na nação. O seu dever principal era o de respeitar e obedecer aos seus pais e anciãos, sem pensamentos elevados ou altas ambições.

Confiança

Outro aspecto da sua humildade era a confiança de uma criança. Ainda hoje, as crianças acreditam no que a maioria dos adultos lhe dizem (até que aprendem que alguns mentem!). Isto é especialmente verdadeiro de um dos pais, a quem o filho ou a filha confiam implicitamente, a menos que a confiança seja desgraçadamente violada.

Dependência

O aspecto final da humildade das crianças é visto no facto de que eles são totalmente dependentes dos seus pais, mesmo para as necessidades básicas da vida, assim como para o apoio emocional e a educação que precisam para sobreviver.

Jesus está a dizer que a vida espiritual começa com uma mudança de direção nos nossos corações e mentes. Não podemos continuar indo na direção da nossa própria escolha e esperar encontrarmo-nos com Deus no final da nossa jornada. Se estamos a querer chegar e conhecer Deus, devemos virar e mudar de direção. Devemos sair do caminho do pecado, e virar na direção da justiça de Deus.

Mas quando nos voltamos, descobrimos que já não estamos a caminhar sozinhos. Como uma criança, Jesus diz que devemos começar a confiar em alguém mais, alguém mais forte, alguém que nos ama para nos ajudar, para nos conduzir, para nos suprir, essencialmente Alguém que quer ser a nossa vida! A salvação não é apenas uma viragem humilde do caminho do pecado, mas uma constante confiança num Companheiro que vai andar connosco. Não é só receber o perdão dos pecados, mas reconhecer a nova vida que Deus nos deu através do Seu Filho! Humildemente começamos a confiar neste guia e amigo, este Deus que nos permite chamá-lo "Pai". A nossa viagem torna-se uma aventura de confiar e depender d’Ele para nos guiar e suprir, já que andamos por fé dia-a-dia. Nós não temos nenhuma força ou poder para nos mantermos na viagem, mas podemos confiar que Ele nos vai alimentar, nos vai vestir, nos vai manter saudáveis e limpos, segurando a Sua mão e seguindo-O – e ainda mais se deixamos que Ele viva a Sua vida através de nós.

Podemos ver aqui que Jesus nos diz que toda a autoridade, toda a força, toda a provisão para a salvação não vem de nós, mas d’Ele! Somente Ele é capaz de nos ensinar a obedecer. Somente Ele é capaz de nos ensinar a confiar n’Ele. Somente Ele é capaz de nos dar o que precisamos para nos sustentar espiritualmente. Nós nascemos de novo como bebés espirituais, indefesos, que devem ser cuidados, devendo confiar n’Ele completamente para nos orientar e nos suprir, ou, se o não fizermos, vamos viver uma vida muito infrutífera. 

A nossa vida espiritual e crescimento dependem da nossa disposição para humildemente Lhe obedecer, humildemente o suficiente para confiar n’Ele, humildemente o suficiente para olhar para Ele e esperar que nos dê a porção justa.

Verdadeiramente, a única maneira de crescer espiritualmente é tornar-se humilde como uma criancinha. 

Mas com a humildade, vem juntamente uma grandeza que Jesus também nos quer fazer entender.

3. Grandeza é marcada por Ele.

Aqui, as palavras de Jesus conectam-no com aqueles que entram pelas portas da salvação através da humildade. Ele diz que vai tratar destes pequeninos pessoalmente (não se referindo às crianças, mas àqueles que exibem a humildade da criança como mencionado nos vs. 3,4). Quem os acolhe com amor, recebe-O a Ele. Mas quem ofende um destes pequeninos terá uma resposta diferente do Senhor.

Aqui, a palavra “ofender” significa literalmente “ser causa de tropeço” e carrega consigo a ideia de fazer com que alguém peque, quer por os seduzir a fazer coisas erradas, ou impedindo-os de fazer o que é certo. De qualquer maneira, Jesus está a descrever alguém que leva um crente, por exemplo ou por negligência, a pecar contra Deus.

A punição que Jesus promete é grave. Naqueles dias, os judeus tinham um medo horrível do mar, e ninguém era executado por afogamento, como os romanos eram conhecidos por fazer. De facto, para os judeus, ser afogado nas profundezas do mar era um símbolo de morte e destruição eternas, e as palavras de Jesus tinham sido escolhidas com cuidado para trazer o horror de levar alguém ao erro, ao pecado.

Com efeito, o que Cristo estava a dizer-lhes era que uma maneira de Lhe podermos mostrar o nosso amor, era mostrar amor aos Seus "filhos". E que se alguém não lhes mostra amor, mas em vez disso tenta desviá-los, enfrentam punições severas pela Sua mão.

A maioria de nós provavelmente vai perceber o quão importante é a Fé para Deus, mas pergunto-me quantos de nós entendemos o quão importantes são para Deus as pessoas que têm este tipo de Fé humilde. De alguma forma, que não é fácil de entender, Jesus Cristo identifica-se com qualquer um que se lança humildemente aos Seus pés, em Fé. Jesus diz que quando tu recebes um como este, estás a recebê-Lo a Ele; quando tu os impedes de andar pela fé com Ele, Ele toma o assunto pessoalmente - tão pessoalmente que promete punição severa.

Isto deve fazer-nos tremer, tanto com alegria como com temor.

Devemos tremer de alegria por saber que o nosso Senhor não é um amigo inconstante que não se preocupa connosco. O Seu amor é leal, consistente e disposto a nos reivindicar como Seus. Ele mostra-nos como somos especiais para Ele, como está preocupado que sejamos bem-vindos em Seu nome, como Seus filhos.

Ele também quer ter a certeza de que ninguém nos impede de caminharmos com Ele, e adverte aqueles que possam causar quaisquer atritos entre nós, que podem esperar consequências terríveis.

No entanto, também devemos tremer de temor ao saber a nossa responsabilidade como cristãos. Claro, há muitos que são estranhos para Cristo, que tentam corromper a relação de confiança que existe entre os Seus filhos e o seu Senhor. Mas eles não estão sozinhos, e devemos ter o cuidado de levar esses pequeninos, afastando-os de maus exemplos ou ajudando aqueles que são fracos. Jesus promete punir aqueles que levam outros ao pecado, sejam eles parte da Sua família ou não.

Uma estória conta de “um velho homem que sabia que estava prestes a morrer, e parecia estar muito perturbado. Finalmente, alguém que o conhecia e amava, perturbado com a sua perturbação, lhe perguntou por que estava assim e ele respondeu: "Quando eu era miúdo, um dia num cruzamento, alterei uma placa de sinalização para que os seus braços apontassem o caminho errado, e sempre me perguntei quantas pessoas foram enviadas na direção errada por aquilo que fiz!”

Conclusão

Nestes versos, Cristo quer-nos lembrar como Deus é, e o que devemos ser, se queremos conhecê-Lo. Deus quer ser o nosso Pai Celestial, mas a única chave que abrirá a porta da salvação, encontramo-la quando nos tornamos humildes como crianças, afastando-nos do pecado e da autossuficiência, indo ao Salvador, confiando n’Ele, n’Ele somente, para nossa salvação. 

Ele promete que, se tu fizeres isso, vai adoptar-te na Sua família, e fazer de ti uma pessoa nova, com um novo destino! 

Podes chegar-te a Ele e tornar-te agora um filho de Deus! Mas mais do que isso, as Escrituras prometem que entras imediatamente no Reino de Deus!

Deixa-me também lembrar-te que se tu já és um filho de Deus, nunca deverás deixar a necessidade de ser humilde como uma criança. Não quero dizer que não amadureças como um filho de Deus, só que a única maneira de crescer é permanecer humilde. Aqueles que mais crescem no reino de Deus são aqueles que mais dependem d’Ele - para que trabalhe neles. 

Talvez já tenha passado algum tempo desde que te humilhaste diante do Senhor e seja agora o momento de admitir o quanto precisas da Sua força, da Sua orientação e da Sua provisão na tua vida. 

Podes agora renovar a tua declaração de dependência d’Ele, em oração. E esta declaração de dependência d’Ele deve incluir a rendição total da tua autossuficiência!

Que Deus te abençoe.

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